O MASP de Lina Bo Bardi: bruta simplicidade

Um museu flutuante, elevado, um prisma suspenso onde se concentram as obras de arte e o acervo.

Separado deste pelo famoso vão livre, sob o solo do mirante, um restaurante, teatro e outras áreas destinadas a atividades culturais e até, eventualmente, oficinas e workshops.

O que levou a arquiteta Lina Bo Bardi, quando projetava o MASP – Museu de Arte de São Paulo – a fazer essa divisão, estes 3 espaços?

Um de livre acesso ao povo, ladeado por espelhos d’água, o superior, em concreto armado e com amplas fachadas de vidro, e o inferior, como mencionado antes, “escondido” sob a terra.

As formas simples e ao mesmo tempo imponentes, até brutas, da enorme caixa de concreto e vidro que parece pendurada em duas “traves” vermelhas já lhe valeram críticas. Parecia abusar de uma busca excessiva pela proporção perfeita, ao que Lina Bo Bardi respondeu sobre o MASP:

O racionalismo tem de ser retomado, mas é necessário eliminar do racionalismo todos os elementos ‘perfeccionistas’, herança metafísica e idealista…

Isso é: ela buscava o simples (“não é preciso muito para ser muito”), mas sem uma postura radical e perfeccionista.

Nesta postagem, conheça um pouco da história do MASP e de Lina Bo Bardi.

E se quiser conhecer também outros detalhes da vida da arquiteta, não deixe de ler: Lina Bo Bardi – biografia, curiosidades, as principais obras e o legado do MASP

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MASP e Lina Bo Bardi: uma verdadeira simbiose

 

O projeto inicial do MASP foi concluído em 1957, mas o início das obras só se deu em 1961, sendo interrompido no ano seguinte. A inauguração do museu acabou correndo só no ano de 1968.

Durante todo este tempo o MASP de Lina Bo Bardi foi sendo aperfeiçoado e redesenhado em sua cabeça, conforme a obra evoluía, parava e era retomada, como ela mesmo anotou em um texto:

Um processo realizado lentamente ao longo de 12 anos muda seu significado a cada dia

Um exemplo, foi a definição das fachadas de vidro, em 1964, como uma resposta velada ao movimento militar que se instaurava no país, em duas frases distintas e complementares:

As paredes serão transparentes como compensação pelos esforços do povo

O vidro das paredes do museu de São Paulo não é o vidro das paredes formalistas

As obras do MASP, para Lina Bo Bardi, não poderiam ficar seladas entre paredes opacas, deveriam ser transparentes, como o espaço aberto do vão livre, cheio de luz e ar fresco.

Esta obsessão pelas áreas livres se faz notar quando ela recusa um projeto de jardim para este local, elaborado por ninguém menos que Roberto Burle Marx:

O Belvedere do Trianon [chamado de vão livre, nos dias de hoje] será uma praça sem jardim, para o encontro do povo, exposições ao ar-livre e concertos, nada mais

Antes de prosseguirmos, vale ressaltar que o vão livre foi a solução encontrada para a edificação do MASP, por Lina Bo Bardi, para atender a uma exigência de quem doou o terreno à prefeitura de São Paulo: qualquer coisa que se construísse ali não poderia atrapalhar a vista do local para a Avenida Nove de Julho, que emerge de um túnel que passa exatamente sob o terreno do museu, algumas dezenas de metros abaixo.

Conheça o primeiro projeto construído pela arquiteta: Os segredos por trás da Casa de Vidro Lina Bo Bardi

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masp lina bo bardi: fachadas de vidro

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masp lina bo bardi: vão livre

MASP: exemplo de obra que transcende suas funções

 

Emblemático, o MASP projetado por Lina Bo Bardi como museu, se tornou muito mais que isso para os paulistanos. E talvez esse fato já estivesse até predestinado na época de sua inauguração, que contou com a presença da própria Rainha Elizabeth II, da Inglaterra.

Ponto de encontro e marco da cidade, é palco de shows, exposições, feiras e até de movimentos políticos, algo que, ao que parece pelas declarações que transcrevemos neste texto, seria de imenso agrado para sua criadora.

Nem só do vão livre vive o MASP

 

Das laterais da praça do tão aclamado vão livre, onde ficam os espelhos d’água dos quais parecem nascer as colunas das duas “traves” vermelhas, uma sucessão de pequenos lagos em patamares descendentes contorna a parte inferior do museu, lembrando formações naturais, em escarpas de montanhas rochosas.

Para dar este efeito natural, as paredes de contenção (pois o museu fica em um terreno bastante inclinado, com o pavimento inferior parte enterrado no subsolo, parte parecendo brotar da encosta) são revestidas de argamassa misturada com pedra britada.

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masp lina bo bardi: parte aberta

São detalhes como este que fazem do museu uma obra completa. Como as escadas, tanto de acesso ao pavimento superior, como ao inferior; as rampas internas cruzadas que levam ao restaurante e os famosos cavaletes de cristal, que, aliás, valem um tópico à parte.

Antes de prosseguir, vale conhecer também: SESC Pompéia Lina Bo Bardi: a casa da liberdade

Transparência e concreto

 

O MASP de Lina Bo Bardi parece suscitar polêmicas até recentemente.

Lina projetou belíssimos cavaletes de cristal reproduzindo o conceito geral da obra: transparência e rusticidade, pois se tratam de placas de cristal encravadas em uma base de concreto retangular: uma solução simples, quase óbvia.

E a mensagem era clara: a arte deve ser transparente e não precisa de luxo para ser apreciada. Mais uma vez repetimos a frase de Lina: “Não é preciso muito para ser muito”.

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masp lina bo bardi: parte interna

No entanto, os cavaletes deixaram de ser usados em 1996, por motivos nunca muito bem esclarecidos.

Em dezembro de 2015, menos de 2 anos atrás, retornaram ao museu, dando ao espaço da pinacoteca, aquele cercado de vidros “não formalistas”, toda amplitude de seus espaços sem paredes onde a transparência dos cavaletes de cristal de Lina Bo Bardi permitem apreciar o salão em sua plenitude total, uma obra atrás da outra, de parede a parede, sem empecilhos ou intromissões.

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